O REPASTO
A passagem de ano, pela primeira vez, foi a sós com a Francisca que, Graças a Deus (quem quer que Ele seja), à Xana e família e, se calhar, em alguma medida, também um bocadinho a mim, felizmente, tem vindo a crescer de forma tornar-se numa mulher espantosamente responsável, atinada, saudável, bonita e, curiosamente, com um sentido de humor e uma forma de olhar a vida e as coisas mais ou menos parecidas com a minha (ou melhor, não é bem parecida, mas existe entre nós o tipo de entendimento que chega a dispensar as palavras… o riso é fácil, generoso e acontece por motivos que são partilhados e que ambos entendemos da mesma forma). Foi uma boa e divertida passagem de ano, em casa, a ver televisão. O que, para muitos pode ser sinónimo de seca, para mim foi a melhor passagem de ano quer poderia ter.
No dia 1, convidaram-me para o repasto que, na Árrábida, alguém “marcou”. Só quando lá cheguei percebi que o mesmo não tinha sido convocado pela Dona da Casa e, apesar de isso me entristecer, como eu tinha sido convidado e como também gosto muito dela, lá estive, encontrando amigos que não via, nalguns casos, há mais de um ano.
Foi um dia triste e sombrio, apesar de ter estado com gente de quem gosto e que há muito não via e não foi só por causa da chuva que caia, mas também pelo desconforto sentido, daquele tipo que se sente quando nos vemos envolvidos em situações que fazem parte da intimidade de outros e com os quais não temos muito a ver, nem nos queremos intrometer (sobretudo por respeito).
Como não sou gajo de partilhar minhas dores e insatisfacções com os outros (e, digam o que quiserem - que isso é mau, que não dvemos “interiorizar” as coisas, ec. - é assim que eu sou: o que é meu é meu, já sou velho o suficiente e vivo nesta solidão há tempo suficeinete para mudar agora) estou habituado a resolver meus problemas por mim e fico algo constrangido com os problemas alheios. Principalmente porque não tenho resposta para eles e não sei distribuir carinho e compreensão, como algumas pessoas. A verdade é que a vida não é bela, ao contrário do que muitos de nós gostamos de acreditar. Nem tem a poesia que nós, fazendo “das tripas coração”, fingimos que tem e o apego a memórias felizes da juventude ou o desejo de que o presente e o futuro contenham reproduções ou reconstruções dessa felicidade passada não é saudável.
O presente é um ponto impalpável, imaterial, em constante mudança. O passado já lá vai e o futuro a Deus pertence (para um ateu, estou a usar esta palavra em demasia), pelo que viver nesse “passado feliz” ou em sua permanente evocação, é pouco saudável, como que uma espécie de recusa da existência, do envelhecimento, de que a vida se faz para a frente… E, no fundo, acaba por se tornar numa espécie de prisão voluntária que a muitos facilita a vida por lhes permitir viver uma ilusão, sem ter de encarar as suas vidas tais como são, nem que assumir o vazio existente em cada um de nós.
A falta de novidades, o não crescimento, o sofrimento que transportamos em cada um de nós e as mudanças que todos os dias se operam em nós, são naturais e deveriam ser acolhidas com alegria, apesar de sabermos que o “corolário” de todo este processo, a cereja no topo do bolo, é um “sobretudo de madeira e uma cova no chão. Talvez mesmo por isso, pr sabermos que o nosso tempo aqui na terra é limitado, deveríamos aproveitar melhor e fazer de cada segundo um momento único.
Compreendo perfeitamente a posição da Dona da Casa e reconheço que deve ser difícil a alguém que não está numa de se agarrar ao passado e que quer seguir com a sua vida em frente (seja lá isso o que fôr, na verdade, é coisa que só a ela diz respeito e pela qual só ela deve ser responsável.. copmo cada um de nós o é pelo “itinerário” que escolhe), arcar com o peso de uma “tradição” que há muito deveria estar morta, se não fosse ela.
Trata-se de uma pessoa a quem devo mais do que talvez ela saiba. Alguém em cuja casa soube sempre encontrar uma porta aberta (a que recorri bastantes vezes) e a quem estou muito grato por isso. Mas reconheço, compreendo, aceito e respeito imenso a força com que demonstrou a sua vontade de mudança, de andar para a frente e nunca ninguém deveria ser obrigado a ser o anfitrião de uma festa que não tem vontade de viver…
Pela parte que me toca, sempre recusei a imposição externa de comportamentos ou sentimentos. A amizade não pode ser uma tradição a que um gajo se acomoda. Ultrapassemos uma leitura superficial do que se passou ontem. É verdade que alguns dos meus amigos não estão bem (e cada vez são mais, infelizmente), mas, a verdade é que sempre que evitamos a nossa verdeira natureza, isso acontece - seja numa escala individual, seja em maior escala , na de um grupo de pessoas, de uma colectividade, de uma sociedade ou civilização. Se não somos quem somos, se fingimos ser outra pessoa, acalentar alegrias inexistentes, proximidades sem substância, etc. as coisas acabam sempre por correr mal.
Confesso que o dia 1 de Janeiro de 2009 foi para mim um dia triste, mas mais do que lamentar-me por causa disso, acho que todos deveríamos pensar nisso. Afinal, queremos viver voltados para a frente, ou a andar de costas, sempre a olhar para o passado?
A minha resposta individual já todos sabem: a amizade, repito, não é uma tradição…
Desculpem-me lá qualquer coisinha.
Bom 2009!


























