18 de Setembro 2008 às 14:07

Ora aqui vai um dos meus p’ra estante, não o podia aliás aconselhar menos à leitura.

Lembro-me de que quando o li me bateu com bastante força, e finalmente ainda hoje com mais distância lhe atribuo grande relevância na teoria em que somos máquinas de genes (que lutam pela sobrevivência) regidas por memes (ou ideias, tão autónomas de vontade quanto os genes – escrevi sobre este assunto há uns tempos atrás).

Enfim, um perspectiva desnorteante mas leve de seguir, tecendo uma complexa amalgama de ideias, sempre com muitos lugares comuns com a nossa própria cultura.

Ficam os excertos encontrados no Webboom.pt para atiçar a curiosidade (e visto que este só mesmo comprado – ‘boa desculpa para entrar numa growshop):

Eis, portanto, pessoas sem microscópios electrónicos nem formação em bioquímica que escolhem as folhas de um arbusto entre as cerca de oitenta mil espécies amazónicas de plantas superiores, contendo uma hormona cerebral precisa, que combinam com uma substância que bloqueia a acção de uma enzima precisa do aparelho digestivo, encontrada numa liana, a fim de modificar deliberadamente o seu estado de consciência.
É como se conhecessem as propriedades moleculares das plantas e a arte de as combinar.
E quando lhes perguntamos como têm conhecimento destas coisas, respondem que o seu saber provém directamente das plantas alucinogénicas.
(…)
A antropologia começou assim a tomar consciência de que o seu próprio olhar é uma ferramenta de domínio e que ela não apenas nascera no colonialismo, como continuava a servir a causa colonial através da sua prática. Aquilo a que se chamou a “linguagem neutra e supra-cultural do observador” era na realidade um discurso colonial e uma forma de domínio.
A solução, para a disciplina, consistiu em aceitar que ela não era uma ciência, mas sim uma forma de interpretação. O próprio Lévi-Strauss acabou por dizê-lo: “As ciências humanas só são ciências por via de uma lisonjeira impostura. Elas esbarram contra um limite insuperável, porque as realidades que aspiram conhecer são da mesma ordem de complexidade que os meios intelectuais que disponibilizam. Por esta razão, elas são e sempre serão incapazes de dominar o seu objecto de estudo”.
(…)
Contudo, mesmo se decidíssemos abandonar o conceito de “xamanismo”, como se fez há trinta anos com a noção de “totetismo”, não conseguiríamos sair do impasse, porque o problema, a meu ver, não se situa ao nível da palavra, mas sim no olhar daqueles que a utilizam: a análise académica do xamanismo será sempre o estudo racional do irracional, isto é, um contra-senso ou um beco sem saída.
(…)
-Tio, o que são aquelas enormes cobras que vemos ao beber ayahuasca?
-Da próxima vez traz a tua máquina e tira-lhes uma fotografia. Assim, depois poderás analisá-las trabquilamente.
Pareceu-me uma boa piada, mas mesmo assim retorqui, rindo, que não pensava que as visões aparecessem na película. “Sim, apareceriam, por terem cores tão vivas” – e, dito isto, levantou-se e recomeçou a caminhada.
(…)
Na realidade, o mundo científico, industrial e político acabava de despertar para o potencial económico dos genes das plantas tropicais. De facto, a biotecnologia desenvolvida no decurso dos anos 80 abria novas possibilidades à exploração dos recursos naturais. A biodiversidade das florestas tropicais representava subitamente uma fonte fabulosa de riquezas inexploradas. Mas sem o saber botânico dos povos indígenas, os biotécnicos ver-se-iam reduzidos a testar cegamente as propriedades medicinais das cerca de 250.000 espécies de plantas do planeta.
(…)
Foi no Rio que me apercebi da profundeza do dilema colocado pelo saber alucinatório indígena. Por um lado, os seus resultados são confirmados empiricamente e utilizados pela indústria farmacêutica; por outro, a sua origem não pode sequer discutir-se cientificamente porque contradiz os axiomas do conhecimento ocidental.
(…)
Escrevi nas minhas notas: “Estes deuses patriarcais e exclusivamente masculinos são incompletos no que respeita à natureza. O ADN, tal como a serpente cósmica, não é nem masculino nem feminino – mesmo que as suas criaturas sejam um, outro, ou ambos. Gaia, a deusa grega da Terra, é tão incompleta quanto Zeus; como ele, resulta do olhar que separa antes de pensar e que é incapaz de captar a natureza andrógina e dupla do princípio vital”.
(…)
Tal como as serpentes mitológicas, o ADN é um mestre de transformação: as instruções contidas no ADN são responsáveis pelo ar que respiramos, a paisagem que vemos e a espantosa diversidade dos seres vivos da qual fazemos parte. Em quatro mil milhões de anos, o ADN desmultiplicou-se num número incalculável de espécies diferentes, enquanto permanecia rigorosamente o mesmo.
(…)
No decurso das semanas anteriores, eu começara a considerar que a perspectiva dos biólogos era conciliável com a dos ayahuasqueros, e que ambas podiam ser verdadeiras ao mesmo tempo. Segundo a imagem estereoscópica que via ao desfocalizar-me deste modo, o ADN era uma tecnologia orgânica cuja hiper-sofisticação ultrapassava sem dúvida o nosso entendimento actual, desenvolvida algures fora da Terra, que transformara radicalmente aquando da sua chegada aqui há quatro mil milhões de anos.
(…)
É certo que o trabalho do xamã deve ser remunerado mas, por definição, o sagrado em si, não está à venda; a utilização deste saber com o objectivo de acumular poder pessoal é a própria definição da magia negra. Num mundo onde tudo se compra e onde até mesmo as sequências genéticas são consideradas propriedade privada susceptível de ser comercializada para benefício pessoal, este conceito não será decerto muito fácil de negociar.
(…)
E perguntei-me: como podia a biologia pressupor que o ADN não era consciente, se nem sequer compreendia o funcionamento do cérebro humano, a sede da nossa consciência, ela própria elaborada a partir de instruções contidas no ADN? Como podia a natureza não ser consciente se a nossa própria consciência é fruto da natureza?
(…)


3 Comentários

  1. Margaridaa no dia 18 de Setembro de 2008 às 16:05

    Ena, dardna, que apresentação interessante e completa!!!!

    Boa escolha , este livro, também o li, (graças a ti!) e gostei de o ter lido.

  2. Maio no dia 18 de Setembro de 2008 às 18:42

    Tenho este livro debaixo de olho há bastante tempo, mas ainda não chegou a vez… A etnobotânica é algo de fascinante!
    Uma entrevista gira com o autor está em
    http://leda.lycaeum.org/?ID=16830.
    Lembrei-me, a propósito, de ir ver ao youtube. Descobri-o (nunca tinho visto este meu distinto colega, hehehe…) e gostei logo do gajo (http://www.youtube.com/watch?v=qnMUxKPmsEc). Que criatura fascinante! Aqui neste link, curiosamente, a bater um coro que parte de uma interrogação que eu próprio tenho usado há anos mas a propósito do nervo óptico, onde se opera essa coisa fabulosa que é a transformação da luz (fotões) em energia electromagnética capaz de alterar quimicamente o que se passa no conjunto cérebro/sistema nervoso central… A TV biosférica de que ele fala a propósito do ayahuasca é, por isso, um estado electroquímico a partir do qual se lançam as grandes interrogações sobre a consciência…
    Pronto, estou decidido! Tenho mesmo de ir ler o livro dele!…

  3. Maio no dia 18 de Setembro de 2008 às 19:21

    Ah! e a propósito, fiz um post sobre isto no TriploM. Obrigado dardna
    Abraço

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