01 de Outubro 2008 às 15:00

A CRISE GLOBAL E A GREVE

Nestes dias de desenvolvimento da “pequena Grande Depressão”, o capitalismo global vai nacionalizando através da injecção de fundos pelo cú da banca acima, numa terapêutica inaudita, sem prévia vacina e os “utópicos” que, dantes, discursavam sobre a chegada da felicidade globalizadora, já começaram a mudar o bico ao prego e a proclamar o fim da história da era dita liberal.
Por mim que gosto da frontalidade e da coragem dos que remam contra correntes, ao contrário do que é costume, apetece-me saudar a democracia norte-americana, onde os partidos não obedeceram nem a presidentes, nem a governos ou candidatos a presidente e directórios partidários e mantiveram-se fieis aos mandatos que receberam do povo, mesmo que tenham cometido erros, recusarando-se a entregar o guito desse mesmo povo às multimilionárias instuições bancárias que por sua única e exclusiva culpa se encontram à beira da insolvência. Às vezes (como nesta vez), parece-me que na democracia da América ainda vigoram alguns dos princípios básicos das revoluções atlânticas, entre os quais se inclui o de poderem os cidadãos criticar o chefe de Estado, o chefe de governo, o chefe de partido, bem como todos os que ascenderam ao poder em disputa democrática e optar por caminhos diversos dos determinados por estes.
Tomara nós em Portugal ser capazes do mesmo, em vez de andarmos todos (de forma mais ou menos explícita) ao comando da “voz do dono”. Nesta nossa “Nacinha” merdosa, quem lá chega acima pela via eleitoral, mesmo que se trate apenas de um pequeno poleiro de uma capoeira de quintal, deveria aprender com este exemplo. Infelizmente, o que acontece é que, uma vez lá em cima, esquecem-se de que não basta o hábito para fazer o monge e que nenhuma cultura totalitária o deixa de ser só porque meteu um verniz emprestado pela vontade de poder, o tal poder pelo poder, onde há actores que, para o exercerem, admitem o assassinato do outro.
É o Portugal dos pequenitos com a mania das grandezas onde custa ser homem livre, sobretudo quando não somos “ricos” ou “poderosos”, nem a estes nos queremos associar.
Correndo o risco do excessivo pessimismo, quer-me parecer que quando olho à minha volta só vejo medo e hipocrisia nos mais improváveis dos locais… Apesar da enorme garganta com que se fala pelos corredores ou nas mesas de café. Por vezes, é preciso por de lado o medo e exercer a nossa liberdade. Falar já não basta, pelo que julgo necessário adoptar uma decisão, contra todas as expectativas e sem receio de retaliações, que vá para além das palavras. É fácil dizer mal das coisas, discordar da situação e de quem a vai conduzindo, sem nada fazer… Deixando tudo como está e culpando terceiros pelo nosso descontentamento…
Por esse motivo, em solidariedade comigo e com os meus colegas, em manifestação do meu descontentamento com a forma como todos nós temos vindo a tornar-nos pasta para moldar nas mãos de um governo mentiroso que não respeita nada nem ninguém, em coerência com aquilo em que acredito e que nada tem a ver com a infelicidade parola e passiva da maior parte de nós, pela primeira vez na vida, vou fazer greve.
Não me interessa não passar de uma gota no oceano. Gota a gota enche o oceano o papo! E já basta desta merda em que cada vez mais nos deixamos enterrar, sem nada opor a quem nos está a enterrar que o faz impunemente, sem qualquer dificuldade.


3 Comentários

  1. 13 no dia 1 de Outubro de 2008 às 18:42

    Bons olhos te leiam, master Nakata. Um abraço

  2. xinha no dia 1 de Outubro de 2008 às 19:57

    Ena o Nakata!! Que bom por aqui. Que refrescante!
    Pois eu tb acho que eles – os americanos – não tiveram outra hipótese. E acho que este episódio é fixe para fazer repensar um bocadinho as leis que regem e influenciam os mercados. A ver o que vai acontecer…
    Então e tu nunca tinhas alinhado numa greve? mas será que és assim tão certinho? Nem parece teu! Olha eu nem sei a razão do protesto, tenho que ir espreitar as noticias.

  3. Maio no dia 2 de Outubro de 2008 às 0:29

    Eis Nakata, o peixe de águas profundas que volta de novo à superfície…
    O elogio da democracia americana é um bom ponto, mas é preciso não esquecer que «a desregulamentação e a intensificação da concorrência estão associadas a um aumento da corrupção e a um esvaziamento da esfera política democrática» e que se há democracia formal (apesar do episódio da contagem dos votos na Flórida nas últimas presidenciais) e mecanismos intermediários de controle (nisso tens razão, os gajos são mesmo bons), por outro lado há leis e práticas judiciárias que são mais próprias de um estado autoritário – a brutal taxa de encarceramento, o Patriot Act, Guantanamo, Enron, Blackwater, o Iraque, a recusa de assinar a convenção contra a tortura, etc., etc. Depois, é preciso ter presente que se por um lado é caricato ver os apóstolos da mão invisível, os que querem cada vez menos Estado, advogarem que o dinheiro dos contribuintes deve salvar os ladrões (“dar o dinheiro ao bandido”, como escrevia há pouco um analista), por outro lado, é preciso não subestimar as consequências das falências em caso de não intervenção do estado, como nos anos 30. E as consequências não serão só para os americanos. Noutros pontos do mundo, muita gente perderá empregos e passrá fome por causa destes gananciosos. Eu creio que os radicais que querem que o mercado se desenvencilhe sem o dinheiro dos contribuintes estão prontos a apagar o fogo com gasolina. Li há dias que um batalhão foi mandado regressar do Iraque para o caso de haver necessidade de manter a ordem em casa, e até há analistas sérios a considerarem a hipótese da aproximação de uma 2ª guerra civil. Eu confesso-me céptico, pois afinal, tanto republicanos como democratas se alimentam dos mesmos esquemas corruptos de financiamento possibilitado por Wall Street…
    Para além das consequências para o mundo (quem tem empréstimos para pagar à banca sabe bem quem é que anda a pagar a crise…) duvido até que a despeito das boas intenções à esquerda e à direita (até Sarkozy…), as coisas mudem muito depois disto tudo acalmar. Os cosmocratas, oligarcas e cleptocratas continuarão na mó de cima. É claro que adoraria estar enganado quanto a isto…

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