No mundo em que vivemos e com as vidas que levamos, é natural andarmos desatentos à solidão dos outros, ou talvez não. Quando a margaridaa diz no post anterior que «não se vê», fez-me lembrar o pesadelo da incomunicabilidade (bem expresso, aliás, neste gag, em que a psicanalista não vê o óbvio, o excesso de visibilidade do sofrimento…) – algo do tipo… estar morto sem saber, como o Bruce Willis naquele filme… ou quando queremos falar e não podemos e ninguém nos ouve… e acordamos com um salto na cama… A solidão pressente-se, intui-se, adivinha-se, mesmo por detrás da aparente normalidade… Mas também é verdade que há muitas solidões que resistem à abertura ao outro e à vida, por se terem habituado aos “prazeres” (?) da comiseração ou à satisfação mórbida do espectáculo em que se é simultaneamente actor e espectador daquilo que, apenas aparentemente, parece ser a própria individualidade – uma mera ficção libidinal num sórdido futuro pós-humano anunciado pelas novas realidades virtuais… Houve, há muitos, muitos anos, quem ensinasse que o sofrimento tem causas universais, para além dos casulos em que enfiamos as nossas vidas… Por isso pasmo quando vejo charlatães como o auto-intitulado “filósofo” que veio pregar ao Pavilhão Atlântico, arrastar multidões prometendo-lhes que podem ser ricas, ganhar muito dinheiro e levar uma vida luxuosa…; e pasmo quando vejo a escuridão encontrar ninho onde antes havia Primavera e andorinhas. Quando vejo os que vendem o céu e as estrelas, sem escrúpulos nem piedade pela sede daqueles a quem enganam com o seu marketing “espiritual”, há uma expressão que fica e que me parece bem adequada a esta era de profunda mudança que atravessamos: “endarkenment”.

















5 Comentários
Maio no dia 17 de Junho de 2008 às 15:01
margaridaa, reparaste na hora do post?
xinha no dia 17 de Junho de 2008 às 19:13
É verdade, podemos viver iludidos quanto à nossa própria individualidade, é um risco, que todos corremos. E as possibilidades da solidão se converter em qualquer ilusão, libidinal ou não, futurista ou não, também são imensas…
Mas isso não invalida a existência do sentimento de solidão. A individualidade parece-me uma condição natural, somos únicos, temos uma identidade própria. Mas o apelo da natureza é implacável, não somos feitos para vivermos sozinhos. Somos impelidos a viver em grupo, por necessidade de sobrevivência, e pela brutal atracção e necessidade de reprodução.
Não há nada a fazer quanto a isso, é assim. Em relação à libido, uma força espantosa, até podemos resistir-lhe e transcende-la, aliás é mais fácil lidar com o que desejamos, do que com o que não gostamos. Mas a solidão pode ser devastadora…como lidar com esse drama? Com a fatalidade que pode ser não ter companhia quando ela faz tanta falta? Uma pessoa, dizem os psiquiatras, deve ter pelo menos 3 outras pessoas próximas com quem possa se dar. Mas quando elas não existem mesmo? Quando já não há mais ninguém? E quando o aprender a diluir a dor é um passo que pode durar anos, isto para quem sabe como faze-lo?
xinha no dia 17 de Junho de 2008 às 20:08
É pá, será que estou completamente desatenta, ou já vi este texto,o post do Maio, ser alterado mais que uma vez?
Margaridaa no dia 18 de Junho de 2008 às 9:33
Maio, reparei nas horas sim, eh eh, ainda é mais giro quando fica registado!
Fiquei a pensar naquilo que aqui foi escrito, no post e nos comentários. (Quem foi que foi falar para multidões?). Percebo que seja muito atraente de repente ver alguém que te fala directamente aos teus desejos, como uma tábua de salvação.Que esse alguém seja em carne e osso, que se possa ver…Quero dizer que compreendo esse fenómeno.(É por aí que passa o êxito de certas igrejas, não é?)
Mas a mim o que me interessa mais é cada pessoa, e não a multidão.E…referindo-me ao comentário de Xinha, eu percebo que a casa vazia deve doer, mas também estou convencida que , se queremos e nos apetece brincar com os outros, podemos (e devemos ) agarrar na bola, desafiar, agir, o “queres brincar comigo?”, sem estar à espera que nos venham convidar. Eu sei que é difícil fazer amizades novas.(Pelo menos é o que sinto),mas podemos sempre ir ao nosso baú e voltar a olhar para quem lá está, com olhos novos, como se fosse a primeira vez, com a vantagem de não ser.
Dar o primeiro passo, imprimir movimento…ok por vezes não te voltam a atirar a bola, ou atiram-te só em resposta ao teu gesto, mas outras vezes há verdadeiras surpresas, e muito agradáveis…:D
Maio no dia 18 de Junho de 2008 às 14:27
margaridaa, o gajo que foi ver se enchia o pavilhão Atlântico, foi um tal Bob Proctor, um americano que anda há mais de 40 anos a refinar a melhor maneira de enriquecer enganando o seu semelhante, coisa que parece finalmente ter conseguido, graças a um best-seller da treta chamado “O Segredo”, de que o negócio dele é um mero epifenómeno. Apesar de não haver muitas notícias, parece que o pavilhão não encheu, apesar de ter lá ido um nº indeterminado de papalvos sofredores e ambiciosos que, com bilhetes entre os 30 e os 60 euros, deve ter dado para lhe pagar o cachet de 35.000€. E qual é o espantoso segredo que o gajo vende? O que chamam “a lei da atracção”, que é algo de uma profundidade espantosa: tem pensamentos positivos e só atrairás coisas positivas. É simples e funciona tão bem que até atraiu efectivamente rios de dinheiro para as contas bancárias destes sábios. A “mensagem” é de uma vacuidade total e não difere das mensagens interplanetárias e atlantes de Kryons, Ramthas e cª Lda, ou seja: basta pensar com muita força e espírito positivo, para que as coisas aconteçam, pois o pensamento determina a realidade. O que é surpreendente é que os vendilhões, dantes, tinham “técnicas secretas” e métodos que era preciso pôr em acção para ganhar o céu. Estes fazem a festa com cada vez menos. Até já nem precisam de encenar aquelas cenas patéticas como se vê fazer no youtube a iluminada JZ Knight. Agora, basta-lhes vender… nada! O vazio total. Não há técnicas, nem métodos, nem posições, respirações ou o que quer que seja. Apenas “façam força” para terem pensamentos positivos de forma a atrairem coisas positivas (dinheiro, claro). É isso mesmo que o charlatão vende: a promessa de riqueza sustentada pela crença numa “lei”. Do meu ponto de vista, este é mais um vampiro que, aproveitando a maré de vendas do livro da australiana, não teve que gastar dinheiro em promoção e marketing, apenas aproveitou a credulidade das pessoas que, ao comprarem massivamente o livro, criaram condições para que estes intrujões americanos venham conquistar mercados na Europa (na terra deles há muita concorrência). Por sua vez, ele abrirá caminho a todo um cortejo de pura irracionalidade e estupidez que vale muito dinheiro. É que o tempo passa e há muita gente que vai reparar que não ficou rica como o gajo prometia. Pelo contrário, até, já que a crise mundial é brutal… Na sequência destes “segredos” muita gente virá a ficar frustrada por não ter enriquecido, por não ter realizado as suas ambições e as promessas de vida faustosa e dinheiro a rodos prometida pelo tal Proctor. E essa frustração, cria o pântano ideal onde outros miasmas poderão medrar, vendendo novos produtos espirituais aos pobres ignorantes.
Triste, esta vaga de endarkenment… Triste, sobretudo, a baixa formação e a falta de senso-comum de quem se engana com a pílula dourada destes bandidos. Este chamava-se a si próprio filósofo, mas nunca andou numa universidade. Dizer-se que se é engenheiro ou médico sem ter habilitações dá prisão. Mas “filósofo”… É livre de enganar o povo, e ninguém se chateia. Vê lá tu que já nem é obrigatório ter uma cadeira de Filosofia para entrar para um curso de Ciências Sociais… Quanto mais…
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