06 de Abril 2008 às 01:12

O Corpo

Ali estava o seu corpo adormecido, aninhado no seu descanso, tão quieto, tão presente na luz amarelada, definindo-se por seu peso e por aquele estar quieto, todo tomado de luz, sem contorno que separasse corpo e luz, os músculos lisos debaixo da pele, tão escorridos na presença quieta, quase diluídos, ninho do seu próprio descanso, prolongando os lençóis desfeitos e suas curvas frouxas de fadiga, e a cova morna do colchão, e a luz quieta e densa como pele amarela sobre a outra, enchendo o quarto até ao tecto e às paredes, absorvendo em si, como corpos amáveis naquele sono, o candeeiro e a mesa baixa e os livros e as roupas, todo o quarto feito camadas sucessivas de luz e substância variada rodeando o centro, núcleo de respirar muito brando, e a tudo se propagando esse único e muito brando movimento, a pele doirada estendendo-se um pouco no peito, e com os seus mamilos quase rosados, e as costas movendo-se também com a mesma unida e certa ondulação da água mansa, as costas bem talhadas, estreitando-se dos ombros até à anca com a rectidão da pedra talhada, mas de braço a braço a curva bombeada, alta e suave, que a meio se cava bruscamente como o leito dum rio, e movendo-se ainda o osso da anca, delicado, saliente agora de sua habitual descrição no corpo que repousa de lado e se debruça, leve, cavando um pouco a cintura, escondendo o ventre e a densa doçura dos pêlos mornos, e um pouco o sexo, alteando o redondo das duas nádegas, depois o sexo entre as duas pernas que se abrem, uma estendida sobre a cama e a outra levemente flectida, esvaindo-se a coxa da anca alteada até à cama, onde o joelho pousa, e aí segue a perna tão abandonada no lençol que quase a fere com seu peso, e entre as coxas, renascendo da sombra do ventre escondido, e que se estende como savana cálida, que em si retém o amarelo da luz, na curva nascente das nádegas, nas coxas, nas pernas, entre as coxas o seu sexo, os dois pequenos pomos cuja firmeza se desenha na pele branda e a corola recolhida de seu pénis adormecido.

Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa em Novas Cartas Portuguesas, 1974 (1972).

3 Comentários

  1. Joana no dia 6 de Abril de 2008 às 1:44

    hehehe!
    Parabéns! :)
    Safaram-se bem! As pessoas que estavam comigo na altura do exercício deixaram-se levar pelos adjectivos e pelas palavras que tradicionalmente são associadas a cada um dos sexos, ignorando os pequenos elementos que indiciam tratar-se de um homem.
    Este texto foi escrito por estas três mulheres exactamente com o propósito de desafiar os critérios e os normas socias e sexuais da época. Censurado em 1972, após a publicação, voltou a ser publicado em 1974.
    Espero que tenham gostado! Eu gostei muito quando o exercício me foi proposto!

  2. Margaridaa no dia 6 de Abril de 2008 às 10:20

    Gostei, sim.
    Mas…fiquei a pensar no censurado, fiquei a pensar que tudo o que é escondido aumenta de tamanho na cabeça das pessoas. Estou-me a lembrar que há pouco tempo expliquei o que queriam dizer certos “enormes” palavrões, (os mais correntes), à minha filha, e como esses palavrões deixam de ter essa conotação negativa depois de explicados, passam a ser exactamente e só, o que são : a definição de qualquer coisa concreta.
    Quero eu dizer com isto que quem censura nao se apercebe que de facto está a apontar os holofotes ao objecto censurado.

  3. Anonymous no dia 6 de Abril de 2008 às 11:21

    Queres saber a melhor?
    Eu e o meu amigo Zé Pianista estávamos no meio da confusão que se gerou ao cimo da Av. Sidónio Pais, junto a S. Sebastião, na entrada tradicional das famílias para o Parque Eduardo VII, quando as estas três Marias e mais um grupo de mulheres decidiram contestar a dominação masculina e queimar os seus sutiãs (confesso que gosto mais de ver e escrever soutiens…) publicamente. Íamos frequentemente passear e brincar para aquela zona e daquela vez fomos surpreendidos pela agitação, mas nunca chegámos a perceber bem o que se passou. Recordo vagamente uma chusma de homens ululantes… Só muitos, muitos anos mais tarde é que me apercebi que tinha estado no meio de um dos mais notáveis acontecimentos da jovem democracia: notável pelo espírito insubmisso que tanta falta fazia às mulheres portuguesas e pela coragem daquelas mulheres… mas triste, muito triste, pela reacção que suscitou nos grunhos que as quiseram agredir…

    One Love
    Marley

Comentar

Dados Opcionais

Voltar ao início