14 de Março 2008 às 23:51

Ele penetrou na floresta, já longe da cidade, consciente apenas de uma coisa: não podia voltar para trás, a vida que vivera durante muitos anos acabara, consumira-se e esgotara-se até à náusea. Ele estava saturado de angustia, de tédio , de morte; não restava no mundo nada que o pudesse atrair, que lhe pudesse causar prazer ou consolo.
Desejou apaixonadamente o esquecimento, estar em paz, morrer. Se um raio o fulminasse! Se aparecesse um tigre e o devorasse! Se houvesse algum vinho, algum veneno que o mergulhasse no esquecimento, que lhe permitisse esquecer, adormecer e nunca mais acordar!
Ainda seria possível viver? Ainda seria possível respirar, ter fome, voltar a comer, voltar a dormir, voltar a deitar-se com mulheres? Esse ciclo não estaria esgotado e terminado para ele?
Siddhartha chegou ao comprido rio da floresta. Parou, hesitante, na sua margem. Para que havia de ir mais longe, para onde, com que objectivo? Já não havia objectivo nenhum, já não havia mais do que um profundo e doloroso desejo de se libertar de todo aquele confuso sonho, de cuspir aquele vinho azedo, de por fim àquela vida amarga e dolorosa.
Fitava a água de semblante descomposto. Viu a reflexão do seu rosto e cuspiu-lhe. Soltou os braços da arvore e virou-se um pouco, para poder cair de cabeça e submergir, finalmente. Inclinou-se, de olhos fechados… para a morte.
Foi então que vindo de uma longínqua parte da sua alma, do passado da sua vida cansada, ouviu um som. Foi uma palavra, uma sílaba que , sem pensar, pronunciou, o antigo principio e fim de todas as preces brâmanes, o sagrado Om, que significava « O Perfeito » ou « Perfeição ». Nesse momento, quando o som da palavra Om chegou aos ouvidos de Siddhartha, a sua alma entorpecida acordou subitamente e ele teve consciência da loucura da acção que ia cometer.
« Om », murmurou intimamente, e teve consciência de Brame e recordou-se de tudo quanto esquecera, de tudo quanto era divino.
Mas durou apenas um momento, foi como um relâmpago. Siddhartha deixou-se cair junto do coqueiro, vencido pela fadiga. Deitou a cabeça nas raízes das arvores e, a murmurar Om, mergulhou num sono profundo.

Hermann Hesse

posted by Janus

2 Comentários

  1. Anonymous no dia 15 de Março de 2008 às 20:20

    Por mais horrível que tudo nos possa parecer num dado momento, a verdade é que tudo está em constante transformação. Agora estamos tontos e burros, tudo é horrível, e depois quando menos esperamos…tudo faz de novo sentido, mesmo que não tenha sentido nenhum. eheh…
    Xinha

  2. Anonymous no dia 16 de Março de 2008 às 13:53

    aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm…

    OM SHIVAYA GANJA

    One Love
    Marley

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