16 de Junho 2008 às 14:43

Os opinionistas

Ocorre-me a fábula de “O Velho, o rapaz e o burro”. Fizessem o que fizessem, dessem por onde dessem – dois a pé e o outro, o burro, também a pé, mas folgado; os dois a cavalo e o asno derreado; o velho montado e o catraio a penates, ou vice-versa -, havia sempre alguém na populaça que armava escândalo ou mofa, bramia de sua justiça, discordava ou corrigia. No final, dizem alguns, a moral da história seria sempre a de a “cada cabeça sua sentença”. Pois, pois…
Depois de ponderar no assunto, não sei bem se concordo. Para mim esta história significa algo substancialmente diferente. Ou seja: Que só anda a toque dos palpites da malta, dos caprichos da turba, quem se insere numa destas três categorias: ou é gagá, imberbe, ou é burro. Esta foi a primeira ideia que me ocorreu…
Mas, para além desta convicção, há ainda um outro preceito que muito estimo e tenho procurado praticar, sistematicamente, ao longo da minha vida, nem sempre de forma consciente, mas mais congénita que é desagradar a gregos e troianos, ou dito de outra forma, o preceito de pegar nas afirmações “mais fáceis”, nas posições de membro de um rebanho (seja este o rebanho que fôr), na expressão de opiniões frequentemente pouco pensadas e pensar nelas. Depois, da boca para fora, politicamente incorrectíssimo, dizer o que me apetece, sem os filtros da boa educação, nem pretensões de produtor de absolutas verdades. Trata-se apenas da minha 0pinião: uma opinião que tento construir sobre uma análise da realidade que tenta fugir aos lugares comuns, não para alcançar uma qualquer forma de originalidade, mas apenas por perceber muitas vezes nos lugares comuns, alguma falta de raciocínio e uma aceitação irreflectida daquilo que os opiniocratas se encarregam de opinar por nós.
Nunca aspirei à produção de verdades, nem nunca impingi meu pensar a ninguém (acho eu) e, por dizer o que penso, já muitos (alguns até por mim estimados) me classificaram como sendo um gajo “mal educado”…
É assim, normalmente, quando jogamos sem ser à defesa, quando pomos as cartas todas na mesa! É certo que este feitio, muitas vezes, já me deixou em guerra com o mundo. Mas a verdade é que sempre me deixou em paz com Deus.
O mesmo já não sei se posso dizer daqueles que, cheios de opinião fácil e ligeira àcerca de quase tudo, sempre com um conselho pronto para dar na manga, cheios de si e do empírico e pouco reflectido saber, disparam a torto e a direito contra quase tudo o que mexe, sem sequer apontar e, muitas vezes, sem pensar se o devem fazer ou não. Sorrio quado deparo com quem assim age, sobretudo porque os argumentos que disparam são atirados de detrás de uma barreira defensiva que não permite contra argumentações.
Expõem-se, não sei se por vaidade ou por outro motivo qualquer (escapa-me esse…), mas sempre protegidos, já que o prazer do debate, do diálogo e da troca de ideias é algo que nada lhes diz… Não escutam as perguntas que acertam nas suas fraquezas como setas no alvo, nem assumem a demagogia implícita naquilo que dizem.
Na sua visão maniqueísta, dividem o mundo entre os bons (que são eles, entenda-se) e os corruptos, os exploradores, os mentirosos, no seu combate pela “verdade”, pela moralização e pelos direitos de todos a tudo, sem verem que, com a sua linguagem inquisitorial, cheia de inimigos a derrotar, cheia de moral ou de outras quaisquer formas de Deus para defender (e impingir), o abrir dessa trincheira onde se escondem para descartar qualquer pensar diferente ou oposto ao seu, apenas os empobrece… numa recusa do diálogo que é triste, pois as melhores ideias não são as que nos nascem em nós, mas as que fermentam na troca com o outro, sobretudo quando o outro não está de acordo connosco…

P.S.: …E, com um sorriso nos lábios, dedico esta a quem a carapuça servir. E provavelmente já ofendi muita e boa gente (não sei quantos leitores tem este blogue…)

17 Comentários

  1. Margaridaa no dia 16 de Junho de 2008 às 16:52

    Apetece-me dizer (com um sorriso nos lábios) : “bom e velho Nakata…”.Percebo o teu discurso, mas não concordo inteiramente com ele. Porque acho que tão mau é concordar por obrigação, como discordar por obrigação. (Veio-me à ideia alguém que não vai ver certo filme só porque ele ganhou prémios.)(Não é ninguém conhecido de alguém).
    A fluidez , a empatia, a receptividade e a troca, eis valores que gosto. E essa de quereres enfiar barretes a quem servirem(os barretes…)hum, acho que há coisas melhores para oferecer…:D

  2. Maio no dia 16 de Junho de 2008 às 20:24

    Estou a ver o teu filme nakata, mas já não me dás grande novidade – não porque tivesses que dar (o que é que tu gostas mais de dar, afinal?) mas porque o rebanho aprecia pastos novos. O teu méeee pode ser desafinado ou a lã ser mais escura, mas se não fossem as novidades o que seria de ti? Por mais que queiras escapar e não te apeteça sequer ver as pessoas e falar com os amigos, não te livras da tua condição ego-gregária. Vê o que está a dar: “sociologia da inovação”…
    PS: tudo isto não quer dizer nada e escusas de andar à procura de sentidos escondidos. O mundo é pura superfície.
    PS2 (não é a consola): Manda mais que a malta gosta de erva tenra pá!…

  3. xinha no dia 16 de Junho de 2008 às 21:50

    Bem, eu acho 1º que tudo, que a tua visão é apenas mais uma, tão legítima como outra qualquer. Mas eu detecto aqui uma contradição Nakata : começas por dizer que pode ser gagá, imberbe ou burro quem acata e segue as opiniões dos outros, mas acabas dizendo que é na troca de opiniões que podem nascer novas ideias. Ora, no caso da história, uma das possíveis visões, é os ditos personagens aceitarem a opinião dos outros como válidas. Tanto como as suas. Daí o irem trocando de lugares. É que ás vezes só experimentando se reconhece a validade de certas ideias. É bom saber pensar pela nossa cabeça, mas agradar aos outros em detrimento da nossa opinião não é uma coisa desonrosa. Pode até ser um sinal de amor…e de querer evitar conflitos idiotas, porque tanto se pode fazer uma coisa assim, como assado. Eu posso ir em cima do burro, mas se insistirem para que desça, mesmo que a razão seja idiota, eu posso faze-lo, isso não me aborrece…e o opinativo até fica feliz…e de uma forma mais cínica ou condescendente, até deixo de o ouvir zumbir aos meus ouvidos. Mas aqui, e para te dar razão, o que interessa é que pode haver várias maneiras de se fazerem as coisas…
    Eu concordo contigo na sinceridade, e nos riscos implícitos…desde que os objectivos, as verdadeiras intenções, sejam nobres. Quanto ao ser mal-educado, bem…eu acho que todos podemos sê-lo sim, mas sobretudo não pelo que dizemos, mas nos modos, no tom, é aí que podemos perder a razão. Mas também te digo que prefiro gente frontal, e espontânea, àqueles que se escondem, e manobram nas escondidas com esquemas manhosos…Com esses nunca sabes com o que podes contar…
    E quanto ao estar bem com Deus e mal com o mundo, como é que é?? Então Deus não se encontra no mundo?? È isso? Onde está então esse Deus ?

  4. Margaridaa no dia 17 de Junho de 2008 às 7:46

    …e ainda, fiquei a pensar, também não és directo. Falas num plural que se refere a alguém (ou a mais que um(a)), sem ser a ninguém de concreto.Parece assim como se tivesses agarrado num punhado de pedras e atirado ao ar, para ver se acerta em alguém.A técnica é a mesma que é usada por quem tu criticas.

  5. RV no dia 17 de Junho de 2008 às 16:27

    À Xiinha respondo que não à contradição nenhuma no que digo: acatar opiniões alheias, acriticamente, e debater,trocar ideias, discutir, conversar e perceber que todos pensamos de forma diferente não são a mesma coisa, nem duas posições opostas que eu defendo. Se calhar não me soube escrever.
    À Margaridaa respondo que a pedra (a expressão é algo dura, não quis atirar nada a ninguém, mas tão só rir-me do quão embevecidas algumas pessoas estão consigo próprias que nem se apercebem de quão agressivamente veneram seus umbigos) foi atirada a alguém, opinioso até dizer chega, que não exprime suas opiniões como algo que é só seu e o faz, aberto à discussão. Alguém que adopta posições (clichés) como se de verdades absolutas se tratassem e que se quando alguém não as partilha, não merece ser ouvido e é ostracizado … De defensores da integridade dos outros e do mundo que, do alto do seu pedestal, criticam a torto e a direito, ao mesmo tempo que se defendem de qualquer argumento que não lhes agrade ou que demonstre a fragilidade dos seus, intrepondo entre si e os outros um filtro que só deixa passar o agradável, estou um pouco farto. Sobretudo, quando eles reclamam para si próprios uma moralidade superior que não reconhece em ninguém que não pense como eles o direito à liberdade de ser diferente…
    …e mais não digo!

  6. Margaridaa no dia 17 de Junho de 2008 às 16:37

    …sabs, RV, essa expressão “pedras” é porque me lembro de o T. contar que quando era miúdo, houve um irmão que se magoou com uma pedra que atirou ao ar e que lhe veio bater na cabeça.Esse episódio veio-me à lembrança quando te li.:D

  7. xinha no dia 17 de Junho de 2008 às 20:00

    RV: não, não são a mesma coisa, mas, ninguém falou em acatar opiniões alheias acriticamente. Falou-se no benefício, implícito, em aceitar, e daí, aproveitar outras ideias, nasçam elas da troca ou não com outras. Se não houver benefício o melhor é estar quieto. Só que às vezes não é preciso debater nada, as opiniões dos outros são óptimas. E o nosso filtro, diz-nos que podemos usá-las de imediato em proveito próprio. Ou não é assim?

  8. admin no dia 18 de Junho de 2008 às 0:40

    nakata, há por aí alguém com as orelhas quentes!… Interrogo-me é… porque raio terás tu ficado com isso atravessado? Porque te terás sentido tão atingido? Porque continuas, tanto tempo depois, a sentir-te como um mártir do livre-pensamento, vítima da Inquisição, alvo de um processo por delito de opinião?… Que rancor…
    Fazes-me lembrar aquela história (que já toda a gente contou 10 mil vezes, a última das quais acho que foste mesmo tu) do monge que pegou na boazona ao colo para atravessar o rio…
    nakata, parte para outra, em vez de ficares a repisar como um bêbado! Não és capaz, pois não? Pois!… Pela leitura do teu comentário, pensa lá: quem é que está a ostracizar quem?
    Aqui o teu amigo Maio (sim eu sei que os amigos já não te dizem nada…)…
    Pois…
    …Ia a dizer mais não sei quê e não sei que mais, mas de repente perguntei-me: porque raio estou aqui a esta hora da noite a perder tempo epistolar com um gajo ressentido que não me aparece quando o convido e nem se dá ao cuidado de telefonar? Deve ser porque sou da “esquerda freak” e voto nuns gajos que têm “opiniões pré-formatadas”…

  9. Margaridaa no dia 18 de Junho de 2008 às 10:16

    ..eu tinha percebido isto que Maio comenta…e concordo com a reacção se Maio (há tanto tempo e ainda!…)

    Quanto à parte dos amigos…não queira deixar de dizer que me sinto muito contente por Nakata ter aceite entrar pata o Bolso.

  10. xinha no dia 18 de Junho de 2008 às 11:08

    Não sei qual é a vossa história. Mas cá para mim, o melhor é encontrarem-se e conversarem. Eh pá, gritem, e discutam se for preciso…mas libertem essa energia…Ou então esqueçam, para sempre…ou melhor ainda, perdoem…

  11. RV no dia 18 de Junho de 2008 às 15:12

    Vocês faze-me rir…Põe-me na mente opiniões, ressentimentos e outras coisas más que nem passaram por ela. E tanto tempo?Quando é que começou ele a contar?Por pouco nem me esquecia da coisa toda, mas por acaso vim cá espreitar e vi a quantidade de comentários que minha boca suscitou… Com estranheza no olhar, reconheço, já que não o esperava nada.Apenas me referi a alguém que supostamente expressa publicamente opiniões, mas que depois filtra as respostas, para aceitar apenas as concordantes… Nada mais… Não carrego nada comigo, nem fiquei “tão sentido”
    …E, já agora – sugiro que façam este exercício, please – vejam lá as opiniões que suscitei com isso… Se o que eu escrevi merecia tanta conversa???
    Alguns até projectam em mim um rancor que não sinto… (Rancor a propósito de quê? Por que razão?
    Realmente…
    …E ainda iam dizer mais “não sei quê e não sei que mais”, mas depois arrependem-se… Realmente, ó Maio, não compreendo porque raio perdes o teu tempo com um gajo “ressentido” (palavras tuas que mais parecem uma projecção freudiana de sentimentos que não nutro) a quem os amigos já não dizem nada…
    Até fico parvo com a infantilidade de certas coisas… Dizem e dizem muito, mas parvoíces destas, passo.
    …E ó Xiinha, não há história nenhuma (digo eu, não é, depois destes comentários, já nem sei bem se há ou não. Pela minha parte não há mas pelo que a outros toca já nada posso dizer e parece, de facto haver!), nem me apetece gritar com ninguém. Parece é haver que queira gritar comigo… Enfim…
    As pessoas surpreendem-me sempre.
    Sabes, margaridaa, tenho pena que assim seja. Inicialmente tinhas-me dito que, dentro de certas limitações, este era um espaço de liberdade onde se podiam dizer as coisas que quiséssemos, mas parece-me que há quem não goste muito das coisas que eu digo…
    Beijinhos a todos e espero que, apesar das minhas idiotices, vocês consigam continuar a divertir-se

  12. Margaridaa no dia 18 de Junho de 2008 às 15:17

    …e não é? (um espaço de liberdade?)A prova está aí, as pessoas dizem (escrevem) o que pensam.Que maior liberdade pode haver?Se não se dissesse nada é que seria mau sinal!!

  13. Maio no dia 18 de Junho de 2008 às 19:07

    … a arte de sacudir a água do capote e assobiar para o lado… como quem diz:
    - “Eu!?????… Nem sei de que é que estão a falar. Pensei lá numa coisa dessas!… Vocês é que me interpretaram mal, seus ingratos mal-intencionados!…”
    Ó Maio, que infantilidade!… Que parvoíce! Vê-se logo que é uma projecção! Estás a inventar tudo!”

    Estas conversas não me divertem nada, de facto. Mas se insistes, também podes crer que não me calo.

  14. Margaridaa no dia 19 de Junho de 2008 às 9:13

    Em complemento àquilo que eu já comentei aqui neste post, (mesmo que provávelmente já ninguém aqui venha), tive vontade de acrescentar o seguinte : aquilo que se diz é baseado nas informações que se tem, que por vezes podem não estar completas.

    E se as histórias não forem tão antigas como isso?E se elas se tiverem repetido?E se houver ostracismo, realmente, (mas não por parte do Nakata…)?E se, realmente, onde se diz haver liberdade de expressão, não haja, e os comentários que se faz passem por um filtro?
    E se?…

    Pronto. Mesmo que mais ninguém leia,os “ses” ficam aqui…

  15. Maio no dia 19 de Junho de 2008 às 11:45

    Bem observado margaridaa, mas então quem tem a informação que permitiria dar uma resposta, hipoteticamente positiva, à tua interrogação “e se…?”. Se o nakata a tem que ponha as cartas na mesa em vez de se auto-vitimar em circunvoluções retóricas pouco transparentes que lançam a suspeição sobre… ninguém em especial a propósito de algo que ele nem sabe de que é que se trata, pois ao que parece – segundo leio (quiçá erroneamente)no post duplicado, ninguém está habilitado para compreender as suas palavras (especialmente eu, claro…).
    Pessoalmente, creio que o nakata revela aqui um entendimento deficiente da “partilha” e da “democracia” – da “liberdade para ser diferente” que invoca. Estive a reler uns certos posts num certo blog que morreu no Outuno passado e não retiro uma palavra ao que disse ao nakata a esse propósito, pois é a minha opinião e também tenho direito a ela: que foi malcriado (coisa que, aparentemente – e na minha leitura das suas palavras, o ofendeu). Mas Discordar é uma coisa. Rebaixar o adversário é outra: para assumir a plenitude da primeira não é necessário descer tão baixo no trato com um amigo (?), que, tanto quanto possível, penso eu, deve ser cortês.
    Mas o que interessa é que acho francamente positivo que, graças a ti, o nakata esteja aqui connosco. Eu, que sempre gostei dele (e já o disse aqui e ali várias vezes) fico particularmente satisfeito, pois o linhas construiu pontes entre as pessoas concedendo a todos oportunidades iguais – isso é democracia – contribuindo, assim, para que nos tornemos um pouco mais transparentes, o que me parece que é bom para todos e para cada um.
    Beijos

  16. Margaridaa no dia 19 de Junho de 2008 às 17:50

    É,concordo com o que aqui escreves, Maio.
    Mas sobretudo gosto quando dizes “eu sempre gostei dele”…
    Porque sabe tão bem dizer : gosto de ti, ou gosto dele, ou gosto dela.
    Eu também gosto de dizer. Por isso não resisto : gosto de ti, gosto do nakata, gosto da xinha …e mais e mais…não é uma lista enorme, mas é uma boa lista, de pessoas de quem gosto!E é bom dizê-lo!

  17. ines no dia 19 de Janeiro de 2009 às 10:55

    esta mal feito

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