02 de Abril 2008 às 06:45

POEMA DOS PAsSARINHOS ANTIGOS

Era um par de jovens. Ela e ele. Ambos Jovens.

Alegremente cantavam as canções dos jovens

E tinham orgulho em dançar as danças ruidosas dos jovens.

Como jovens que eram riam-de das pessoas antigas

Por já não serem jovens,

Por não saberem dançar as suas danças de jovens,

Por não saberem cantar as suas canções de jovens.

Mas num dia em que os seus olhos se encontraram de certo modo,

Sentiram nos seus corpos um estremecimento antigo.As células antigas dos seus corpos estremeceram.

As palavras de amor saíram-lhes da boca

Pressurosas e múltiplas,

Como as pequenas bolas de sabão

Quando num tubo estreito são sopradas.

E juntamente com elas saíram passarinhos leves,

Passarinhos antigos,

Tão leves como as bolas de sabão,

E os passarinhos iam debicar nos lábios de ambos,

E os lábios intumesciam-se, vermelhos e macios como polpas,

E os passarinhos roçavam a penugem do peito pelas pálpebras deles

Com os bicos alisando as sobrancelhas,

E aninhando-se entre a carne e a roupa

Batendo as asas num saber antigo.

Quando acordaram e quiseram sacudir o pó do tempo

Ouviram o riso dos jovens que se riam das pessoas antigas,

e alegremente cantavam as suas canções de jovens

E tinham orgulho em dançar as danças ruidosas dos jovens.

In Poesias Completas

De António Gedeão


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