29 de Abril 2008 às 06:23

RAS TAFARI e a PROFECIA ETÍOPE

by Alexandre Bertolazi


2 Comentários

  1. Anonymous no dia 29 de Abril de 2008 às 10:21

    Obrigado margaridaa! Excelente sinopse. Uma única imprecisão: quando o autor fala nas “formações culturais pan-africanas” evidenciando as diferenças do culto rasta a partir do mesmo plano em que se encontra a santeria, o vodu, o candomble…
    Se não considerarmos os aspectos culturais mais vastos – em que todas estas expressões se referem ao culto dos espíritos e à prática do transe – o rastafarianismo distingue-se não só pela sua dimensão messiânica e milenarista (ausente nas anteriores) como pela ausência de uma componente mágica operativa (presente nas anteriores). Esta última componente existe também na Jamaica mas é independente do culto Rasta, tomando o nome de “obeah”.
    O sistema colonial, convém recordar, conduziu ao extermínio da população autoctone da Jamaica e de outras ilhas das Caraíbas – os índios Arawak. Nem um sobreviveu.
    Convém ainda salientar os escravos fugitivos (maroons, chimaroons – chimarrões) que faziam aldeias fortificadas nas montanhas, comunicando entre pontos distantes através dos tambores – fenómeno que ocorreu na Jamaica, como em Cuba e nas demais ilhas. É importante termos consciência, hoje, da proveniência da riqueza acumulada que permitiu à Europa a sua industrialização. Oiçamos o sociólogo suiço Jean Ziegler na sua explicação do processo de globalização (em “Les Nouveaux Maitres du Monde et ceux qui leur resistent”): «Ce sont principalement les Africains – hommes, femmes et enfants – qui, dès le début du XVIe siècle et dans des conditions d’une indicible cruauté, ont payé de leur sang et de leur vie l’accumulation premîère du capital européen. Pour indiquer le rythme de cette accumulation, je ne donnerai qu’un seul exemple: en 1773-1774, la Jamaique comptait plus de 200 000 esclaves sur 775 plantations. Une seule de ces plantations d’étendue moyenne employait 200 Noirs sur 600 acres, dont 250 de canne. Selon les calculs les plus précis fournis par Marx, l’Angleterre a retiré de ses plantations de Jamaique dans la seule année 1773 des profits nets s’élevant à plus de 1 500 000 livres de l’époque».
    Para isto, foi preciso proceder áquela que foi a maior emigração forçada da hiatória da humanidade. Pelo menos vinte milhões (outros calculos decuplicam este número) de homens, mulheres e crianças foram arrancadas à sua vida normal, privadas da sua condição humana, acorrentadas e amontoadas como “coisas” – mercadorias – em porões de barcos. Os que sobreviveram à viagem (umas três semanas, um mês, para atravessar o Atlântico) encontravam à chegada a lei do chicote…
    De sublinhar, finalmente, a influência cultural indiana na ilha – por via de algum tipo de mobilidade comercial própria do sistema colonial inglês. Esta influência pressente-se nalgumas expressões musicais das recolhas etnomusicológicas disponíveis (v. “Bongo, Backra and Coolie: Jamaican Roots”, vols. 1 and 2, Smithsonian Institution), tanto nalguma percussão como num incrível instrumento de corda improvisado tocado com arco, cujas escalas apelam claramente para a Índia. A mesma influência é patente também na expressão corrente para designar o cânhamo: “ganja” – que é, manifestamente, de proveniência hindu.
    O rastafarianismo, pelas suas características culturais e o reggae que o veiculou, constituem do meu ponto de vista, um dos mais fascinantes fenómenos sociológicos que alguma vez conheci – fascínio que se confunde, aliás, com a minha própria vida. Foi este mesmo fascínio que me fez descobrir-me como pessoa, como se acordasse de um sonho induzido por uma maléfica Matrix que me manteve escravo até à idade de 15 anos. Por isso sou suspeito para falar disto, mesmo muito suspeito!…

    One Love
    Negusa Negast

  2. Margaridaa no dia 29 de Abril de 2008 às 15:35

    Obrigada digo eu, Negusa Negast, por completares a sinopse. Ela está aí justamente para se saber o quê, o como, o onde.
    E não, não és nada suspeito, mesmo quando as coisas nos tocam não deixamos de perder a lucidez, apenas aumentamos o conhecimento sobre elas (as coisas, as ideias, as pessoas…).

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