01 de Abril 2008 às 10:48

Uma casa

Na pedra das janelas de grandes vidros foram pousadas jarras com tulipas ardentes, cor de fogo, púrpura e amarelo. 0 sol entra pela manhã, muito cedo, e derrama-se pelo chão de madeira cor de mel. Àquela hora, tudo fica quente e silencioso, quase secreto.

As folhas das árvores mexem com o vento e ouve-se um rumor vegetal antigo e puro. Inundadas de luz, as folhas de cima dos arbus­tos, mais verdes, transparecem e devolvem a certeza primitiva das estações. Precisam de ser cortadas mas ninguém se atreve a ficar sem elas, sem o recorte das sombras que desenham nas paredes brancas. Alguém há-de vir um dia aparar a sebe que cobre o muro de pedras e, então sim, as folhas verde claro, quase trans­parente, hão-de ser podadas. Um dia.

A camélia resistiu aos ventos e começou a flo­rir. Muitas flores abertas e por abrir pesam agora nos seus ramos novos. Flores rosa-bran­co, perfeitas e densas. Sensuais e poderosas. A serra vê-se através dos vidros inteiros, por trás da camélia, da sebe, do muro de pedras e das árvores da casa. Enche o céu, define o hori­zonte e amplia o espaço. 0 tempo também. É uma serra de grandes montes e escarpes que descem até ao mar. Uma serra com árvores de tronco majestoso, coberto de musgo e com cheiro a resina. Uma serra com caminhos de sombra e terra fresca, molhada, salgada pelo mar que o vento traz.

Em casa ouve-se a chuva e o vento mas nunca o mar que inunda a vista e corta a respiração mas não se deixa sentir. Embora muito pr6ximo parece distante, plano e, quase sempre, demasiado quieto. A ilusão da sua quietude traz segurança e uma paz que jamais saberei definir. E é na abstracção liquida daquele azul infinito que acordo e adormeço. Feliz por também pertencer àquela casa.

by LAURINDA ALVES


2 Comentários

  1. Anonymous no dia 1 de Abril de 2008 às 19:07

    A Laurinda é capaz de ser boa moça, mas é muito beata.
    Não que o texto o denuncie, mas por coisas que vi na TV.
    Xinha

  2. Margaridaa no dia 1 de Abril de 2008 às 19:47

    Tudo o que eu sei dela (via revista xis) , é que escreve muito bem sobre coisas simples. Gosto imenso.

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