19 de Setembro 2008 às 15:43

Ele diz que tem inveja dos poetas.
Eu digo que tenho inveja dele, da forma como escreve bem sobre coisas banais, do dia a dia.
Ele aqui vem outra vez :


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01 de Maio 2008 às 07:06

CANçÕES QUE CURAM

06 de Abril 2008 às 01:12

O Corpo

Ali estava o seu corpo adormecido, aninhado no seu descanso, tão quieto, tão presente na luz amarelada, definindo-se por seu peso e por aquele estar quieto, todo tomado de luz, sem contorno que separasse corpo e luz, os músculos lisos debaixo da pele, tão escorridos na presença quieta, quase diluídos, ninho do seu próprio descanso, prolongando os lençóis desfeitos e suas curvas frouxas de fadiga, e a cova morna do colchão, e a luz quieta e densa como pele amarela sobre a outra, enchendo o quarto até ao tecto e às paredes, absorvendo em si, como corpos amáveis naquele sono, o candeeiro e a mesa baixa e os livros e as roupas, todo o quarto feito camadas sucessivas de luz e substância variada rodeando o centro, núcleo de respirar muito brando, e a tudo se propagando esse único e muito brando movimento, a pele doirada estendendo-se um pouco no peito, e com os seus mamilos quase rosados, e as costas movendo-se também com a mesma unida e certa ondulação da água mansa, as costas bem talhadas, estreitando-se dos ombros até à anca com a rectidão da pedra talhada, mas de braço a braço a curva bombeada, alta e suave, que a meio se cava bruscamente como o leito dum rio, e movendo-se ainda o osso da anca, delicado, saliente agora de sua habitual descrição no corpo que repousa de lado e se debruça, leve, cavando um pouco a cintura, escondendo o ventre e a densa doçura dos pêlos mornos, e um pouco o sexo, alteando o redondo das duas nádegas, depois o sexo entre as duas pernas que se abrem, uma estendida sobre a cama e a outra levemente flectida, esvaindo-se a coxa da anca alteada até à cama, onde o joelho pousa, e aí segue a perna tão abandonada no lençol que quase a fere com seu peso, e entre as coxas, renascendo da sombra do ventre escondido, e que se estende como savana cálida, que em si retém o amarelo da luz, na curva nascente das nádegas, nas coxas, nas pernas, entre as coxas o seu sexo, os dois pequenos pomos cuja firmeza se desenha na pele branda e a corola recolhida de seu pénis adormecido.

Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa em Novas Cartas Portuguesas, 1974 (1972).
03 de Abril 2008 às 00:35

Venho desafiar-vos para um exercício que me propuseram a mim. Este texto está incompleto e sem referência de autor propositadamente. O que vos proponho é lerem o texto e dizerem se a descrição que é feita é de um corpo de homem ou de mulher e se acham que quem escreveu (o escritor e não o narrador) é homem ou mulher. Para aqueles que já conhecem o texto não vale dar a resposta, nem ir procurar à net. É só um jogo de especulação, não damos nada no final!! A não ser o final do texto e a resposta certa! Divirtam-se!

O Corpo

Ali estava o seu corpo adormecido, aninhado no seu descanso, tão quieto, tão presente na luz amarelada, definindo-se por seu peso e por aquele estar quieto, todo tomado de luz, sem contorno que separasse corpo e luz, os músculos lisos debaixo da pele, tão escorridos na presença quieta, quase diluídos, ninho do seu próprio descanso, prolongando os lençóis desfeitos e suas curvas frouxas de fadiga, e a cova morna do colchão, e a luz quieta e densa como pele amarela sobre a outra, enchendo o quarto até ao tecto e às paredes, absorvendo em si, como corpos amáveis naquele sono, o candeeiro e a mesa baixa e os livros e as roupas, todo o quarto feito camadas sucessivas de luz e substância variada rodeando o centro, núcleo de respirar muito brando, e a tudo se propagando esse único e muito brando movimento, a pele doirada estendendo-se um pouco no peito, e com os seus mamilos quase rosados, e as costas movendo-se também com a mesma unida e certa ondulação da água mansa, as costas bem talhadas, estreitando-se dos ombros até à anca com a rectidão da pedra talhada, mas de braço a braço a curva bombeada, alta e suave, que a meio se cava bruscamente como o leito dum rio, e movendo-se ainda o osso da anca, delicado, saliente agora de sua habitual descrição no corpo que repousa de lado e se debruça, leve, cavando um pouco a cintura, escondendo o ventre e a densa doçura dos pêlos mornos, e um pouco o sexo, alteando o redondo das duas nádegas, depois o sexo entre as duas pernas que se abrem, uma estendida sobre a cama e a outra levemente flectida, esvaindo-se a coxa da anca alteada até à cama, onde o joelho pousa, e aí segue a perna tão abandonada no lençol que quase a fere com seu peso, e entre as coxas, renascendo da sombra do ventre escondido, e que se estende como savana cálida, que em si retém o amarelo da luz, na curva nascente das nádegas, nas coxas, nas pernas, entre as coxas o seu sexo,

01 de Abril 2008 às 10:48

Uma casa

Na pedra das janelas de grandes vidros foram pousadas jarras com tulipas ardentes, cor de fogo, púrpura e amarelo. 0 sol entra pela manhã, muito cedo, e derrama-se pelo chão de madeira cor de mel. Àquela hora, tudo fica quente e silencioso, quase secreto.

As folhas das árvores mexem com o vento e ouve-se um rumor vegetal antigo e puro. Inundadas de luz, as folhas de cima dos arbus­tos, mais verdes, transparecem e devolvem a certeza primitiva das estações. Precisam de ser cortadas mas ninguém se atreve a ficar sem elas, sem o recorte das sombras que desenham nas paredes brancas. Alguém há-de vir um dia aparar a sebe que cobre o muro de pedras e, então sim, as folhas verde claro, quase trans­parente, hão-de ser podadas. Um dia.

A camélia resistiu aos ventos e começou a flo­rir. Muitas flores abertas e por abrir pesam agora nos seus ramos novos. Flores rosa-bran­co, perfeitas e densas. Sensuais e poderosas. A serra vê-se através dos vidros inteiros, por trás da camélia, da sebe, do muro de pedras e das árvores da casa. Enche o céu, define o hori­zonte e amplia o espaço. 0 tempo também. É uma serra de grandes montes e escarpes que descem até ao mar. Uma serra com árvores de tronco majestoso, coberto de musgo e com cheiro a resina. Uma serra com caminhos de sombra e terra fresca, molhada, salgada pelo mar que o vento traz.

Em casa ouve-se a chuva e o vento mas nunca o mar que inunda a vista e corta a respiração mas não se deixa sentir. Embora muito pr6ximo parece distante, plano e, quase sempre, demasiado quieto. A ilusão da sua quietude traz segurança e uma paz que jamais saberei definir. E é na abstracção liquida daquele azul infinito que acordo e adormeço. Feliz por também pertencer àquela casa.

by LAURINDA ALVES

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